sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Adolescência

No meu quarto a decorações passava por um processo de transição onde barbies eram deixadas de lado dando espaço para maquiagens, pilhas de CDs, e revistas de moda. O som permanecia numa altura surreal, assim como a minha pessoa equilibrada na sandália plataforma. Um quarto lotado de amigas alisando franjas, falando de forma descontrolada, emprestando blusas, e sutiens de enchimento.

Aahhh, a adolescência... O período em que ser chata é quase que um requisito obrigatório, onde seus pais te causam vergonha pelo simples motivo de serem seus pais, fase das espinhas, dos telefonemas com horas de durações. O primeiro beijo, o primeiro regime, e sim, o primeiro porre.

É na adolescência que a gente aprende o problema de se misturar cerveja com vodka, ou qual a reação da bebida em um estomago vazio, e o mais importante de tudo, a gente aprende, e do pior jeito, a potencia de três tequilas na sequência. E não é que a gente aprende de vez, não, não, e tem todo o juramente do “eu nunca mais vou beber na vida”, mas isso é só uma questão de tempo...

Era sábado de madrugada. Eu e uma amiga, que no caso estava prestes a aprender a lição da tequila, andávamos até o quarto com certa dificuldade, já com as sandálias nas mãos. Deitar era o máximo, ainda que rodando mais que o ventilador de teto. Um pouco de vento na cara sempre melhora tudo, mas, por infelicidade da amiga de porre, a luz acabou, e com isso, o vento parou.

Eu sei que tanto você que está lendo isso, quanto eu que estou escrevendo, conseguimos imaginar a sensação do mal-estar, no exato momento em que o ventilador parou, e um calor abafado se instalou no quarto. Enjôo, transpiração, e muito, muito, medo daquilo, que nessas horas a gente não consegue nem pensar na palavra, quanto mais falar...

- - - Cá, acho que não estou muito bem...

- - O que foi amiga?

- - - Humm... Meio enjoada.

- - - Não vai vomitar aqui!

- - - Não fala essa palavra, ai.... ai....

- - - Onde você está indo?

- - - Onde você acha?

Deitada na cama eu pude ouvir o ruído. Hoje em dia eu não ajudo mais, mas a adolescência é o período que você dá mais importância para os amigos, e por isso, entrei no banheiro, e fiquei perto da janela, constatando que não era apenas na minha casa a falta de energia. Depois de muito passar mal, veio o desabafo...

- - - Ai Cá, eu sou muito idiota.

- - - Não fica assim amiga, todo mundo passa mal, é normal, eu também já fiz isso.

- - - Não, Cá, você não tá entendendo, eu sou muito idiota mesmo!

- - Amiga, pára, amanha você já está melhor...

- - - Não Camila, eu sou idiota por que eu não vi que a tampa da privada estava fechada...

Adolescência, a fase em que a gente é mesmo muito idiota.

sábado, 10 de outubro de 2009

Pombas

Por favor, alguém me explica qual é a fixação dos turistas por pombas? Vou explicar melhor antes de sair falando igual doida. Estou na Europa em férias com os meus pais. Aquele tipo de viagem que eu não me preocupo com o horário do vôo, onde está meu passaporte, ou qual a melhor rota para o aeroporto. Como estou com os seus pais, tenho todo o direito de não prestar atenção em absolutamente nada, e me comportar como uma criança idiota.

E lá estava eu derramando o meu sorvete de pistache na blusa, olhando um monumento de alguém que já foi importantíssimo, mas acabou se tornando uma peça de bronze toda cagada por pombas, quando um pouco mais a frente, observei um grupo de turistas jogando alguma coisa para as pombas, que de forma agressiva começaram a se abolotar e cercar os tais turistas.

Como eu sei que eram turistas? Bom, primeiro porque um deles usava um gorro com as cores do México, daqueles que a ponta é bem comprida e quase chega no chão, e segundo porque a mãe do cafona falava alto pra caramba a frase, “hace mucho frio aca, Pablo!” No caso o Pablo era o cafona do gorro. Já o pai, do pequeno Pablito, sacava las fotos, mais ou menos 1.000 fotos das pombas no ombro, e cabeça de todos do grupo.

Mas esse grupo foi só o primeiro que eu avistei  nessa situação de entrosamento total com pombos. E logo que percorri os olhos para os outros pontos da praça, percebi que o barato do local não era o pobre homem de bronze com importância centenária, e sim as milhares de pombas que por ali circulavam.

Eu perdi o foco total no Pablo, quando comecei a reparar no casal de italianos ao me lado. “Isso tem cara de lua de mel, certeza” comentei com a minha mãe que nesse ponto já acompanhava tudo ao meu lado, “Será, filha? Estou achando ela um pouco velha...”  pois é, às vezes a minha mãe consegue ser pior que eu.

A italiana jogava migalhas no chão enquanto ele tomava distancia para fazer a foto, e então, ela vinha correndo com os braços abertos lá do fundo em direção as pombas que voavam de medo da ragazza.  Sim, isso mesmo, a foto com as pombas voando em volta. A foto mais cafona do mundo, a foto que todo ser humano deveria ter vergonha de ter, e aproveitando a oportunidade, se você tem essa foto, esconda, queime, ou não me conte.

Mas o pior ainda estava por vir. Minutos depois do descompasse italiano, eu escutei em alto e bom som um carioquês, “Aê Alessaaaannndro, aqui elash vêm no ombro!” E sabe o que o Alessandro respondeu? “É merrrmo!” Pior do que sentir vergonha de uma italiana, é ver o Alessandro com o nariz escorrendo, esfarelar um pretzel inteiro na própria cabeça! No Rio não tem pomba não?

Eu tenho nojo de pomba. Gente, pomba tem piolho, doença! Tá certo que o Pablo estava de gorro, mas e o resto do povo pondo a pomba na cabeça? A mãe do Alessandro achando lindo... Ninguém nunca ouviu falar na expressão rato que voa? E não existe pombo em outros lugares do mundo? Tem que ir até a Europa pra ver pombo?

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Ligações chatas

Não é toda tarde que a gente consegue tirar uma soneca bem no meio da semana, e eu cheguei umas 4 em casa com a possibilidade de dormir até as 6, escureci o quarto, coloquei a calça larga, a blusa velha, o filme ruim, e deitada com uma mantinha daquelas que faz peso no corpo te dando uma espécie de segurança infantil, eu adormeci, mas não por muito tempo. O meu celular começou a tocar e no visor dizia “numero bloqueado”.

Quando aparece “numero bloqueado” é difícil ignorar e não atender, porque você não sabe ao certo quem você está realmente ignorando, pode ser qualquer pessoa no mudo, e isso me dá um certo desespero! “Oi aqui é do Vaticano, o Papa tem uma mensagem secreta pra você, um minutinho que eu estou transferindo a ligação.” Ou então, “Camila, você foi escolhida e será enviada para a NASA, segundo os testes do seu Facebook você tem o perfil certo para a nossa próxima missão.” Bom, resumindo toda essa palhaçada, eu atendi a ligação.

-      - Por favor, a Camila Fremder.

-      - Eu.

-      - Oi Camila, aqui é a Tânia da Isabela Capeto, estou ligando pra avisar que a loja ta linda, já está com a nova coleção, passa aqui pra tomar um café com a gente.

        Alguém já reparou na pentelhação que é atender esse tipo de telefonema? Primeiro porque ela nunca vai dizer, “Oi Camila, essa nova coleção ta meio caída, mas quebra o meu galho e dá um pulo aqui pra eu não morrer de tédio!” A loja ta sempre lindaaaa, a coleção ta sempre incrível, e tudo tem sempre super a minha cara!

        Fora que tem loja que você foi uma única vez, há anos, comprou uma regata, e te ligam até hoje! Juro que eu tenho vontade de falar, “Querida, eu fui aí uma vez só há anos, não é mesmo? Se eu não voltei, é porque eu não gostei, não é? Vamos trabalhar a rejeição?”.

        E o lance do café? “Passa aqui pra tomar um café!” Eu não passo nem na minha avó pra tomar café, porque eu iria parar o meu dia pra tomar café com uma vendedora que eu nem conheço? Gente, vocês tem o meu e-mail, meu endereço, parem de me ligar por favor! Outro dia me ligaram oferecendo um curso...

-      - Alô, Camila?

-      - Isso.

-      - Aqui é a Janaina da escola de artes SP, estamos com vagas para o curso de fotografia avançada.

-      - Sei...

-      - Você não quer se inscrever?

-      - Não, obrigada. Não sou fotografa e não entendo nada de fotografia.

-      - Mas o curso dá uma bela base pra quem não trabalha com isso.

-      - Mas eu não quero aprender nada sobre fotografia.

-      - Temos cursos de pintura a óleo também.

-      - Não tenho interesse, obrigada.

-      - Ok, você pode indicar alguém para os cursos? Passar o telefone de alguma amiga?

-      - Não, mas eu gostaria muito de saber quem te passou o meu telefone.

Que coisa mais chata, eu tenho vontade de dar uma de louca e sair ligando pra todo mundo! “Alô, Tânia da Isabela Capeto? Aqui é a Camila Fremder tudo bom? Acabei de terminar um texto que vai pra revista Talk do próximo mês, passa aqui pra dar uma lida, você vai amar! “Oi aí é da escola de artes? Acabei de encerar o chão da sala com uma cera nova, posso dar umas dicas, venha tomar um café no fim de tarde, sem compromisso!”. O que será que esse povo ia achar disso?

quarta-feira, 29 de julho de 2009

O cara do carro fedido

-       - Posso abrir o vidro?

-       - Ta com calor, Camila?

-       - Não, seu carro tem um cheiro estranho... Meio doce.

-       - Vê se é isso aqui ó.

-       - É... que porcaria é essa?

-       - Um cheirinho pra carro.

-       - Eca, mas é de pêssego!

-       - Você não gosta de pêssego?

-       - Gosto de comer, não de cheirar...

-       - É que antes estava cheirando cigarro.

-       - Então acende um pelo amor de Deus.

-       - Não dá... parei de fumar.

-       - Justo agora?

-       - Você é engraçada Camila.

-       - Não, não sou. Mal entrei no seu carro e já reclamei que ele fede.

-       - Mas você reclama de um jeito engraçado.

-       - Fora que depois você disse que parou de fumar, e eu achei ruim!

-       - Tem coisa mais engraçada que isso?

-       - Sério, eu sou um saco, não vai se enganando não.

-       - Eu adoro as coisas que você escreve.

-       - Ixiii.... Agora piorou.

-       - Como assim?

-       - Isso nunca é bom.

-       - Por que?

-       - Porque você vai achar que já me conhece só por ter lido as coisas que eu escrevo.

-       - Mas eu te conheço um pouco mais por ter lido.

-       - Conhece a Camila que escreve, não eu, eu sou diferente.

-       - Sei...

-       - Fora que você vai chegar na minha casa  e começar a reparar nas coisas.

-       - Tipo o que?

-       - Tipo se tem activia na minha geladeira, se eu durmo mesmo com tampão no ouvido, se eu tenho mania de arrumação, se eu como uva sem caroço o tempo todo... Essas coisas.

-       - E é tudo mentira?

-       - Não, não é tudo mentira, mas às vezes eu enjoei de uva, e to bem no meio da bagunça.

-       - E?

-       - E você vai ficar dizendo, cadê as suas uvas? Achei que você era mais organizada. E eu vou ter que ficar te dando satisfações, “vou comprar uvas amanhã, deixa eu arrumar isso aqui antes de deitar...” Um saco!

-       - Sério?

-       - Já sei como as coisas funcionam... não demora muito pra você pedir pra eu escrever um texto pra você, como se eu escrevesse absolutamente tudo que ocorre na minha vida.

-       - Ia ser legal mesmo estar em um texto.

-       - Claro, muito legal, tão legal que eu vou acabar escrevendo, mas aí, só escrever não basta. Você vai perguntar quando eu vou postar no blog.

-       - Ah, tem texto que você não coloca no blog?

-       - Sim... e, sabendo disso, você vai me encher o saco pra ver os texto que eu não postei.

-       - Por que eu vou querer isso?

-       - Porque você vai achar que são os textos de todos os caras que eu já saí.

-       - Ah ta...

-       - E toda vez, depois que a gente transar e eu for tomar banho, porque eu odeio tomar banho junto, e que eu me lembre isso eu nunca escrevi, eu vou achar que você vai fuçar o meu computador inteiro atrás desses textos.

-       - Então a gente vai transar?

-       - Se a gente continuar saindo vai... Fora que você vai querer saber quem é o cara do chapéu, o cara bonito e metido, o cara que não me ligou...

-       - É, tenho que confessar que sinto uma certa curiosidade, mas já estou feliz em saber que você pensou em sexo dentro de um carro fedido, com um cara que não tem capacidade nem pra acender um cigarro.

-       - Verdade...

-       - E como a gente faz agora?

-       - Bom, vou escrever um texto logo de cara, vamos ver como você reage.

-       - Mas esse você vai postar no blog?

-       - Ó lá, ta vendo? Já começou...

terça-feira, 14 de julho de 2009

Viajando

As ligações começam logo cedo, “Vamos? Feriado não tem nada pra fazer em São Paulo... Larga esse computador, pára de noiar um pouco, de escrever tanto...” Bom, e aí que eu fui de novo. Enrolei a parte debaixo do biquíni com a de cima e encaixei no cantinho da mala perto das meias, juntei os cremes, os livros, os grampos e, estrada. Eu sempre acho que estou fazendo a coisa errada quando saio de casa, mas como tem aquele papo do “vai todo mundo”, eu acabei indo com o trato de voltar no sábado.

É uma das coisas mais incríveis, mas basta você descer a serra e abrir a janela só pra ver como está o tempo, que você fica suja. E eu me ponho a reclamar... “Não é frescura, ta bom, pode até ser um pouco de frescura, mas eu viro uma pessoa com pele oleosa e cabelo descontrolado, e eu não gosto dessa pessoa. Ela me deprime.” Ainda no carro eles dizem, “pára Camila, você não está oleosa, e o seu cabelo sempre foi descontrolado .”

Como nada é muito planejado, a gente resolve parar no mercadinho  da praia pra ter o que comer no café da manhã. Eu comentei que eu sempre viajo de pijama? Já desço do carro me segurando pra não falar nada, esses mercadinhos onde você lembra como era o primeiro logo da gelatina Royal me deprimem muito. Logo na sessão de congelados, noto que a barra do pijama encosta numa água parada oriunda de um saco de mussarelas que estourou, depois constato que só tem activia sabor ameixa. Volto pro carro com medo, prendo o cabelo e abro um pacote de polvilho. “Vai dar tudo certo”, eu me convenço.

Os meninos voltam pro carro com 28quilos de picanha. Comentei que só tinha eu de mulher? Eu ando com homens, simplesmente porque quando eu digo “cala a boca que eu to de mau humor”, eles não choram, e quando eu pergunto “será que eu ligo pro fulano?” eles me mandam calar a boca. Pura sintonia. A única hora que a gente discute é no supermercado, eu não entendo a quantidade de carne, e eles não conseguem entender a quantidade de activia, de resto a gente vai muito bem.

Logo que chegamos, rolou aquela discussão de quem ia dormir comigo, eu sempre durmo com o Claudio que já está totalmente habituado com o meu grau de paranóia, mas como o Claudio não foi, o escolhido da vez foi o Ciro. Assim que subimos para o quarto ele sentiu que estava sendo avaliado. Entrou em silencio, posicionou a mala bem rente ao pé da cama, trocou os tênis por chinelos, e nada de bagunça. Saiu do quarto com ar de vitorioso.

Eu tenho algumas exigências, quem dorme comigo tem que passar remédio de nariz de qualquer maneira, eu não suporto gente que ronca, sendo que eu ronco mesmo usando remédio de nariz. Além disso, eu falo, sento na cama e estalo as costas, tudo dormindo, é assustador. Tive um namorado que chegou a sugerir exorcismo, fiquei triste com o comentário, mas não disse nada, no dia que eu sugeri que ele depilasse as costas, a casa caiu, a gente não se fala desde 2002, mas essa é outra história...

Eu gosto do Ciro porque ele é aquele tipo de pessoa que topa sem nenhum problema entrar na sua nóia. E logo que amanheceu e eu vi que estava sol, eu arrastei ele pra fora de casa e comecei o meu discurso de ex-integrante do Greenpeace... “Olha quanto espaço Ciro, nenhuma nuvem, ta sentindo o sol queimar? Ai Ciro como isso faz falta...”

E o Ciro lá, respirando de braços abertos, acompanhando passo a passo dos meus minutos de contemplação... Até que passa uma lambreta bem na nossa frente, com um barulho insuportável, um cheiro de  coisa podre, e um japonês medonho montado. Isso que eu chamo de cortar o barato. “Mas a vida é assim Ciro, vive tirando com a nossa cara” e o Ciro ri, “tão tirando com a gente né Cá?”.

Fiquei pensando na vida, nos mercadinhos deprimentes, na minha eterna mania de encontrar razão pra tudo, nas escolhas, nas crises, na intensidade das coisas, no mau humor... E as vezes não é culpa minha, nem sua, ou do Ciro, ás vezes é mesmo um filho da puta numa lambreta que acaba com o seu dia.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Crise


-       - Alô.

-       - Oi Kiko.

-       - Camila?

-       - Eu.

-       - Que telefone é esse?

-       - Ah, é o da minha casa, mas nem anota.

-       - Por que? Vai mudar?

-       - Não, tenho esse numero há anos, mas às vezes desligo o celular pra ficar sozinha, e vai ser um inferno vocês ligando na minha casa.

-       - Ta bom, eu não anoto. E aí, fez o que ontem?

-       - Preguiça de falar...

-       - Ta de mau humor?

-       - Não.

-       - Quer vir aqui?

-       - Não, quero ficar sozinha.

-       - Ok.

-       - Vem você aqui?

-       - Achei que você queria ficar sozinha...

-       - Mas qualquer coisa eu fico no quarto.

-       - Ah ta, e eu fico sozinho na sala?

-       - Chama alguém pra ficar com você.

-       - Você ta em crise...

-       - Talvez.

-       - Te conheço, ta acontecendo alguma coisa na sua vida que você não ta sabendo administrar, então pra não pensar, você quer a gente aí.

-       - Sei... mas você vem?

-       - To indo, vou ligar pro Ciro, assim tem mais coisa pra você arrumar.

-       - Vocês vão fazer bagunça?

-       - É isso que você quer não é? Muitos cinzeiros com bitucas, tênis espalhados pela casa, você precisa organizar coisas... Te conheço.

-       - Vem logo, já to arrumando a sapateira pela terceira vez!

Simulação de como deve ter sido o papo Kiko x Ciro.

-       - Oi, Ciro.

-       - Fala Kiko.

-       - A Camila ligou aqui me chamando pra casa dela... Vamos?

-       - Videogame?

-       - Isso que eu pensei.

-       - Ela ta chata ou rola chamar o Ale?

-       - Ta na nóia de novo...

-       - Crise?

-       - Sim, já ta arrumando a sapateira...

-       - Irado, vou chamar o Claudio também, assim tem mais coisa pra ela fazer.

        Papo entre Ciro e Claudio.

-       - Claudio?

-       - Oi.

-       - Vai rolar videogame na casa da Camila.

-       - Quem vai?

-       - Eu, você, Kiko e Ale.

-       - Ela liberou a casa? Posso chamar o Vavá?

-       - Ta liberado, parece que é crise de novo, vai ficar no quarto, arrumando gavetas, depois a sala, cozinha e tal... lembra da ultima vez?

-       - Lembro, ela até arrumou o meu cabelo... Irado, to colando lá.

  Papo entre Ciro e Ale.

-       - Fala Ciro.

-       - Casa da Camila.

-       - O que vai rolar?

-       - Videogame.

-       - Quem vai?

-       - Todo mundo.

-       - Ela topou?

-       - Parece que ta em crise.

-       - Ixi... ta arrumando tudo lá?

-       - O Kiko falou que ela ta doida de novo, lembra a ultima vez?

-       - Lembro ela arrumou nossos tênis por ordem de tamanhos... Melhor pedir pizza também, assim ela lava a louça.

Claudio, Ciro, Ale e Kiko jogam videogame. Sem nem tocar a campainha o Vavá vai entrando.

-       - Cadê a Camila?

-       - Lavando uns copos.

-       - Eu coloco o meu tênis na fila de tênis ou ela vai fazer isso?

-       - Larga o tênis por aí, o Ciro foi limpar o cinzeiro e ela gritou com ele... Aliás, alguém liga pra pizza porque se ela parar de limpar a gente tem que ir embora!

-       - Vou ligar pro Tonico também.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

No elevador

Eu sou do tipo esquecida, toda manhã eu abro a porta de casa, chamo o elevador, tranco a casa, e... “Ai, o Ipod, cadê o Ipod? Sandraaa, abre aqui! Joguei a chave na bolsa, não to achando...” “Esqueceu o quê dessa vez Camila?” E é assim mais umas três vezes, celular, chave do carro, casaco, sempre atrasada procurando, procurando...

O pior é que eu moro num andar muito alto, e o elevador sempre vai embora, um saco, fico lá no hall, me olhando no espelho, rezando pro vizinho não aparecer e eu ter que tirar o Ipod e ser legal às 9h00. “Oi... to esperando o elevador.” Eu sempre falo alguma coisa idiota, claro que eu to esperando o elevador, o que mais eu faria num hall de 2 metros quadrados? “ Oi, to dando um tempo da minha sala, resolvi ficar aqui no hall... acho que vou trazer minha TV pra cá, você se importa?”

Bom, era terça-feira, o elevador vem do 16 e para no meu andar, abro e me deparo com a seguinte cena: Uma mulher com seu bebê no carrinho, ela uns 38, ele uns 6 meses. Me dou conta de que esqueci a chave do carro, e digo que ela pode descer, ela muito educada insiste, – “Não, vai lá, a gente te espera, até o elevador chegar aqui de novo, vai lá!”.

Fui. Odiando aliás, meio pressão aquele elevador aberto com um bebê dentro, a mão tremula pra abrir a porta, entro em casa e me dá aquele branco de 5 segundos de idiotice, “o que eu tô procurando mesmo? Ah, a chave!” Não tava na gaveta da sala, não tava no criado mudo, roupas de ontem sendo revistadas com muita pressa, e aquela pentelha segurando o elevador, até que achei num bolso de casaco.

“Oi, desculpa, demorei né?” “Que isso, foi rapidinha...” Penso comigo, ai que saco ela é fofa, ai que saco o bebê ta me encarando pelo espelho do elevador, ai que saco são muitos andares, e, ai que saco, vou ter que falar com voz de idiota com o bebê pra mostrar que eu sou legal.

Começo então a sequência de ruídos do tipo, brrruuuummm que toda criança ri, mas ele nada, me encara como se fosse um contador infeliz recém divorciado, um gerente de banco sem saco, me falando as vantagens das aplicações pela milésima vez, o bebê é do tipo puto nas fraldas.

Chegamos, abro a porta educadamente para que ela saia com o carrinho, agradeço mais um vez pela gentileza, e me protejo pondo o Ipod. Mas, eu já sabia que aquilo era só o começo, o primeiro encontro, agora eu estava fadada a ser eternamente legal com a mulher do 16 que segurou a porta do elevador pra mim. É assim, a gente esquece a chave do carro um dia, e passa o resto da vida criando assuntos idiotas  pra conversar com vizinhos no elevador.

Dito e feito. Uns três dias depois, abro a porta do elevador e lá está ela sorridente, e ele mal humorado. “Oi... hoje não esqueci nada hehehe...” já soltei uma idiotice logo de cara. Mas o meu pai sempre disse, não pergunta Camila, não arruma problema pra sua cabeça, e ao invés de ficar mexendo no celular com cara de problema, eu dei uma de legal e perguntei:

“Como ele chama?” ela disse em alto e bom som, “Irineu.” E pra piorar, sentiu a necessidade de explicar a tal escolha do nome, “É o nome do avô dele”, o que na verdade só me fez pensar que se “é” o nome do avô dele, significa que o fdp ainda ta vivo e achou ótimo batizar o bebê de Irineu! Olhei pro bebê e soltei: “Que lindo você, Irineu.” E o Irineu lá, puto.

Eu entrei em desespero, o nome pipocava na minha cabeça, Irineu, Irineu, Irineu... Me enfiei dentro da bolsa como se procurasse alguma coisa, depois mexi no Ipod, olhei pro celular com cara de problema e nada de chegar no térreo, eu só conseguia pensar, “Meu Deus, é Irineu, agora eu vou encontrar o Irineu no elevador, eu vou ver o Irineu crescer, o primeiro dente do Irineu, se eu passar muito tempo aqui, eu vou ver a primeira namorada do Irineu, eu vou dizer, oi Irineu...”

Olha, desculpa se você se chama Irineu, ou o seu pai, primo, avô... mas é muito esquisito um Irineu de 6 meses de idade. Passei o dia com o Irineu na cabeça, pensando num apelido legal, treinando sozinha um, “Oi, o Irineu ta bem?”. Uma coisa de louco... Eu tenho agora um novo carma, e ele se chama Irineu.

 
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