O lugar era gigantesco, vários ambientes e andares, banheiros unisex, e a galera mais animada que eu já vi. Eu estava numa balada gay, minha preocupação com a aparência era zero, o numero de xavecos era praticamente zero, e isso me fazia gostar ainda mais daquele lugar.
As três e meia da manha, eu me encontrava em cima do palco, de olhos fechados, dançando Madona, ou melhor, dublando Madona, naquele momento eu era a Madona!
Mais no clima do que eu só um gay bem magrinho, com uma camiseta justa, rosa bebe, com a estampa de um dos ursinhos carinhosos. Ele dançava com as mãos para cima e quando ele ouviu os primeiros acordes de Like a Virgen, ele gritou bem alto para o colega gordinho ao lado – Nossa a minha música!
Eu estava amando aquela balada, eu já era quase gay!
A trilha sonora estava incrível, não esqueceram nem do Axl Rose. A essa altura eu já estava entre dois gays, fazendo um trenzinho, sendo que um deles usava apenas um colete que por ironia do destino, era de couro!
Não me conformava ter descoberto aquele lugar só agora, ele teria me poupado muitas baladas insuportáveis, com pessoas insuportáveis, e musicas que depois de um certo tempo se tornam também insuportáveis.
O mundo gay era tudo, na verdade, quase tudo que eu sempre quis ter numa balada.
Já morta de sede, suada, mas com os pés ainda aptos para dançar pelo menos mais duas horas, porque salto nem pensar, lá eu posso encarar os meus 1,65 sem medo de ser feliz, eu resolvi pegar uma bebida no bar. Caminhando pela pista, driblando educadamente as poucas lésbicas do local, eu me deparo com uma miragem, o homem (nem tão homem assim) mais lindo do mundo!
Ele era loiro, alto, magro, mas forte, sorriso branquinho, olhos azuis, e um pequeno detalhe ao seu lado, um mini namorado já puto me olhando com cara de barraqueiro. Caguei pro namorado dele, não posso olhar? Quando eu passo na rua e algum baiano fica me encarando com cara de tarado eu não falo nada. Problema seu, barraqueiro! Continuei olhado e não pude deixar de reparar no cabelo, era perfeito, tão perfeito que só um gay era capaz de deixar um cabelo assim.
Quando ele passou por mim ele ainda teve a cara de pau de me olhar e dar uma risadinha, ele olhou pra mim e riu! Como assim? Na minha cabeça as idéias absurdas começaram a evoluir, será que ele era bi? O desespero nessas horas é tanto que a gente pensa na melhor das hipóteses! Mas não, ele não era bi, ele era um gay muito mal. Bem na minha frente o amor entre eles foi praticamente consolidado, se eu tivesse um punhado de arroz estaria naquele momento jogando na cabeça deles.
Não me lembro de algum dia ter sido beijada com tanta paixão em publico, era amor, eu não tinha a menor duvida disso. E lá estava eu, olhando um amor que muitos julgam ser impossível, mas para mim era verdadeiro, talvez um pouco caloroso de mais, mas enfim, eles tinham platéia. Comecei a reparar que eu não era a única passada com cena, muitos gays estavam também pasmos, talvez com a beleza, talvez com o beijo.
O show não parecia ter hora para terminar, e com todo aquele calor a minha bebida já tinha secado. Eu enrolei meu cabelo suado num coque suado e mentalmente me despedi do deus grego e seu chiuaua. Infelizmente eu havia conhecido o lado negro e cruel de uma balda gay, mas isso não tiraria o meu bom humor jamais!
Voltei para o meu palquinho feliz da vida, porque agora tocava George Michael, e eu gritava junto com ele e os poucos solteiros do local – Freedom!
Cheguei em casa de manha, e durante o banho eu não pude deixar de pensar no casal, mas se o amor pode ser lindo, bonito e cheio de tesão até para um chiuaua, acho que eu posso continuar esperando a minha vez, uma hora ela chega.
Um comentário:
kkk ótimo texto, muito legal, vc escreve muito bem! parabéns...
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