terça-feira, 8 de abril de 2008

Amor Racional

Espero que vc tenha gostado da minha cara de paisagem no aeroporto, sempre faço a mesma cara enquanto aguardo um desastre iminente, a voz que vem de dentro da minha cabeça, não me deixa nem escolher um último sanduíche pra comer com vc – Atenção, passageiros com destino ao fundo do poço, última chamada portão 69, informamos os passageiros com conexão para a montanha de cocô, que as suas bagagens irão direto para o seu destino final.
Se vc tivesse visto o cantinho da minha boca todo mordido, certamente teria se assustado, parece que ali eu despejo o meu nervosismo enjoativo, mas disfarço falando alguma coisa do tipo – que bom que a grama faz fotossíntese – enquanto provo o meu delicioso sanduíche de sei lá o que.
A nossa atual situação me fez escolher uma estratégia racional, ou seja, optei por viver um dia de cada vez, mantendo um jogo curto, nada de pensamentos e planos pretensiosos, o negócio era tomar cuidado pra não me prender a um lugar, ou a uma pessoa, não jurar coerência e lealdade a nada, nem ninguém. Falou então...
Foi muito fácil ser seduzida por prazeres verdadeiros ou imaginários de uma vida de quem acumula sensações, e mesmo carregada de ansiedade, eu consegui viver assim por uma semana. Eu percebi que não fazer parte de nenhum lugar significa não contar com a proteção de ninguém. Eu fui exatamente como vc, consegui me senti à vontade em pleno desabrigo, ta orgulhoso?
É confortante banalizar o dia seguinte pensando que ele seja eternamente um dia depois, e sentada no seu sofá vermelho eu assisti atenta a qualquer movimento seu que merecesse um suspiro meu, ainda que suspirar seja emoção demais pra quem se comprometeu a não sentir nada.
Congelei o meu melhor sorriso, defini que meus olhos gravariam tudo, atentos e calmos, sem nenhuma emoção, e toda vez que eu me senti afogada por dentro, eu estalei dedos e costas como uma válvula de escape do meu descontrole. Agora meus dedos doem, minhas costas estão destruídas, e aquele líquido salgado lava a minha alma, rosto e partes da casa.
Hoje eu acordei vazia, o dia ta cinza e não tem iogurte na minha geladeira. Existir doeu um pouco, dói lembrar que não faço idéia do que pode acontecer. Meus olhos insistem em passar o nosso filme, e mesmo quando eu dou de cara com uma barata no elevador, eu não tenho ânimo pra me assustar – Bom dia Barata, sabia que estou sofrendo de amor?! Ela não responde, pós-moderna que é ela precisa seguir vivendo, buscando o lixo, o ralo, e o cano.Ela não tem tempo para as minhas baboseiras sentimentais, e pra vc ela certamente não seria uma barata. Resolvo mais uma vez sorrir e engolir seco, minha capacidade de ignorar a tristeza chega a me deixar mais triste, mas no fundo eu acho graça.
Enquanto vc dormia, eu recolhia os meus restos da casa, então achei melhor largar o meu chinelo por aí, os vestígios de passos são rapidamente apagados, mas um chinelo de borracha pode durar mais tempo que a gente.
Eu definitivamente não sei no que isso pode dar, talvez numa boa história, ou um buraco no coração, só sei que a cada dia que passa some de mim a felicidade besta de quem ganha um girassol no meio da tarde.

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