terça-feira, 16 de setembro de 2008

Falando com o coração

Foi no meio da noite, é incrível, mas as coisas bizarras só acontecem durante a madrugada, pelo menos comigo. Começou com uma dor no peito, creio ter acordado por causa dela, na seqüência uma falta de ar muito grande, eu tremia, suava, e forçava as minhas mãos contra o peito como se empurrasse algo.
Fui sentindo um enjôo, um engasgo, a respiração cachorrinho acelerava o ritmo, meus olhos escureceram por alguns segundos, dor, muita dor, e quando eu parecia não agüentar mais, dei a luz ao meu coração, detalhe, pela boca.
Enquanto eu ainda tossia e tentava recuperar o fôlego perdido durante o parto, ele me encarava balançando a cabeça, indignado. “Desculpa, mas esse era o caminho mais curto, acredite”. E eu olhava pra ele pensando que era criatividade demais pra ser sonho ou realidade.
E ele continuava, “eu tive que vir até aqui falar, esse negócio de sentimento não é com vc. Poxa, eu to lá angustiado te mostrando, ou pelo menos tentando te mostrar toda a dor e sofrimento, e vc nada?”. Alcancei a garrafa de água e dei um gole enquanto ele andava de um lado para o outro pelo meu quarto com ar de barraqueiro.
“Olha pra mim enquanto eu falo com vc, eu sou o seu coração!”. Eu tava pasma, fui me desculpando meio sem jeito, e ao sentar na cama me senti muito leve, a gente não tem idéia o peso de um coração! E lá estava eu, cara a cara com o meu, puto da vida, diga-se de passagem...
“Camila meu amor, não é possível!”, aos berros, e gesticulando muito. “Olha pra mim! Eu to des-tru-í-do, quem me vê não diz que tenho apenas 26 anos, to me sentindo um trapo!”. Tive que concordar, realmente ele estava muito judiado, eu tinha que dizer alguma coisa “Oi, eu te chamo de coração mesmo?”, vai saber né, de repente ele tem nome...
“Não, me chama de rim! Cada pergunta, juro por Deus!!”. Olhava pra cima totalmente sem paciência, como se esperasse uma luz divina, um milagre. Retomei a conversa, “nem sei o que te dizer, eu não sabia que estava te causando todo esse desconforto, chega mais perto, deixa-me ver se dá pra colar alguma parte, ou pelo menos tapar esse buraco do canto”. Ele não disse nada, mas permitiu que eu o encostasse.
“Bom, o motivo da minha visita, é que acho que preciso de férias”. Achei o papo meio estranho, mas como estava distraída juntando os pedaços do meu próprio coração permiti que ele continuasse com o seu raciocínio. “Não sei, coisa rápida, tipo 30 dias no máximo. Acredite faço isso muito mais por vc do que por mim”.
Aquilo me soou estranho demais, “quer dizer que eu vou andar por aí sem coração? Que papo é esse, onde vou deixar vc?” “Calma mulher de Deus, já pensei em tudo! Sabe o porta cookies lá na cozinha? Pois eu vou ficar é dentro dele, mais precisamente embaixo da sua cama”.
“Eu encho de água?”, berrei da cozinha. “Sim, até a metade, por favor!”. Fui andando de volta para o quarto, derrubando um pouco de água pelo caminho. “Vai, pula aí dentro!”, falei já meio sem paciência, “Eu tenho o sono leve, vê se não faz barulho”, e fui empurrando o pote para debaixo da cama.
Tomei um banho demorado, me troquei, e fui pra rua sem sentir nada, sem peso, sem dor, sem angustia... Talvez 30 dias seja pouco.

10 comentários:

Anônimo disse...

Genial sua linda!!!! adorei este texto...

Anônimo disse...

ta se superando cada vez mais!

parabens!

Anônimo disse...

E a gente sem ar, de tanto que você escreve bem. Só demorei a entender o "o encostar". Você quis dizer "encostar nele", né isso? Parecia que estava encostando ele num canto, da forma que escreveu. Bem, meus parabenevides!

Anônimo disse...

os 3 ultimos textos de um desabafo!
fala pro seu coração praticar uma hidroginástica que em 30 dias ele vai ficar uma belezinha!
;)

Anônimo disse...

Pareceu realmente filme de novo!!! rsrs. Cara, fico embasbacado sempre quando venho por aqui, tu escreve´pra caralho!!! Acho que meu coração por esses dias deve ter esse tipo de papo comigo também... rsrs. Mas 30 dias pra ele será muito pouco! rsrs. Bjus.

http://so-pensando.blogspot.com

Fernando Segredo disse...

Angústia do começo ao fim.
Muito bom texto, Camila.

Até ia assinar o comentário, mas isso é Segredo.
ha ha ha

Anônimo disse...

Não se vc já viu mas senão ...
http://br.youtube.com/watch?v=hV6b2h02wHw

Anônimo disse...

mimo. gostei muito do texto. traduz mto bem o seu humor interior.parabens meu amor
meg

Anônimo disse...

Já disse um músico que admiro bastante: "o artista deve sofrer para criar".

Sofrer, neste caso, não precisa ser algo trágico, pode ser algo corriqueiro como morar longe da família e amigos para fazer faculdade ou um novo emprego em que as pessoas ainda não botam muita fé em você.

Assim, revogue essas férias:
- os textos estão muito bons; e
- permite a reflexão, algo fora de moda nos tempos da busca da satisfação imediata.

Mone Carvalho disse...

Gente estou até agora sem ar, de ler as coisas que essa garota escreve, ela é simplismente demais, eu estava procurando alguns artigos sobre o que é ser normal para um trabalho, qdo achei os seus textos, estou imprecionada, ela escreme mto bem mesmo. Parebéns Camila, você é ótima,
ass: MONE