Um dos caras que já gostou de mim, ficou apaixonado mesmo pelo broche de caveira verde, larguei o tal broche, umas manias estranhas, e um pouco de filosofia em cima da sua mesa de centro, peguei o avião e fui embora. “Ele vai ficar bem, quase não uso aquele broche, e pra que filosofar tanto quando se mora num país onde a novela dita a moda? Ele precisa dessas coisas muito mais do que eu”.
Sofro da síndrome da doação, e por isso, largo partes de mim por aí como se fossem presentes. E sabe o que é mais impressionante? As pessoas pegam! Ninguém aparece do nada e me diz, “acho que vc deixou em casa essa dose de paciência, vamos sentar em algum lugar, conversar um pouco, e assim vc pega ela de volta”.
Ando por aí me despedaçando e distribuindo bom humor, cansa um pouco, mas mantenho a pose sorrindo, e falando nisso, alguém precisa de um sorriso? Nada mais justo que dividir, mas a doação exige muito da gente, e agora nenhum outro broche combina com o casaco preto de plush, paciência.
Teve um outro que levou a sério o papo do sinta-se em casa, era bem bonitinho ver ele sentado no chão da sala, indo buscar água na cozinha, mexendo nas caixinhas da mesa da sala, eu sei que ele só precisava de um pouco de calor humano, ganhou, ele foi embora logo depois que os seus óculos embaçaram.
Eu sinto uma ebulição de coisas dentro de mim, então vou despejando por aí atenção, assunto, e o que mais for preciso, me reciclo o tempo todo, o problema é quando eu exagero na dose.
É difícil conseguir distinguir onde acaba o seu excesso, e onde começa aquilo que vc precisa pra se sentir bem, e viva. Tem um cara que sempre me convida pra um café, ele acaba tomando o meu tempo, meu raciocínio, meu ar, e o meu suco!
Já doei de tudo, e sem trocadilhos infames, dizem que “é dando que se recebe”. Preciso praticar a troca, mas são anos e anos servindo os necessitados de plantão, por isso fico meio bloqueada quando chega alguém me dando atenção ou carinho.
Têm dias em que eu acordo menor, vazia demais, as roupas largas, tão largas que acabo doando, resolvo que é melhor me recolher e não saio de casa até me sentir estufada de novo. Em outros dias acordo mais cedo, antes do meu sono acabar, quem sabe alguém precise dele mais do que eu.
Abro as portas de casa, escrevo a minha vida, e encontro mais gente esperando um pouco de mim. E no final do dia, no final do papo, no final da festa, no final das contas, as pessoas só vieram buscar mais um pouco, o tanto que elas precisavam. Se eu me sinto incompleta? Talvez eu compre um outro broche.
9 comentários:
é impressionante como você mistura um monte de coisas e mesmo assim faz sentido.
se não fui claro, digo: é um elogio. bem legal suas escritas. pra ser claro de novo que hoje estou supeeerrrexplicattiivvoo: é prazeroso ler seu blogue.
céus! como estou didático.(bêbado também, acho que agora, não tenho mais nada a explicar)
hum.
vc aprova comentários.
hum.
recrimino isso.
hum.
tsctsc.
Nós temos limites, até para comentários...
Sua estranhesa, estranhamente me traz conforto.
I.
trocando broches por brioches, ando recebendo mais do que dando.
Capitão Caveira.
adorei o blog! identificação imediata com isso de se doar demais e precisar aprender a praticar a troca...
adorei o blog! identificação imediata com isso de se doar demais e precisar aprender a praticar a troca...
realmente é mto difícil trocar....
É dando que se recebe
É passando que se conhece
É passado que se presente
É presenteando que se abraça
É abraçando que se dá conselho
É conselho que se dá de graça
É engraçado o que se passa
Eu passo pra dar um abraço
E enquanto muita gente vaza
Acho chato voltar pra casa.
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Pronto, hoje não adianta reclamar que eu não trouxe uma lembrancinha.
:**
Tá bom, vai...
Eu compro uma camiseta escrito:
"Escrevi este p#%a post e só recebi este mísero comentário..."
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